segunda-feira, 13 de junho de 2011

"Marina arregalou os olhos e de repente tudo na sala ficou do jeito que estava. Os dois soldados, debruçados sobre as brochuras que acabaram de receber e que resumiam o que ouviram da senhora gorda, já não pareciam mais ler, já não estavam condenados como quando chegaram, já não passavam de figurantes congelados no presente. Não havia futuro nem apreensão nem medo. Por um instante, nada ia acontecer a ninguém. Não era preciso tomar nenhuma providência para impedir que as coisas acontecessem. Era uma trégua e todos respiravam."

O filho da mãe. Bernardo Carvalho.

sábado, 4 de junho de 2011

Sabe aquele sábado em que você acorda cedo porque tem uma aula chata, toma coragem pra encarar o friozinho da manhã, sai debaixo do edredon, se veste, toma um café-da-manhã gostoso e sai contente, apesar de a aula ser chata e ser sábado e cedo e de ter um monte de coisa pra estudar à tarde. Aí você põe uma música boa no som do carro, aumenta o volume e vai cantando e agradece por estar feliz, apesar de todas as chatices que a vida, a idade e as responsabilidades vêm te trazendo.

E, então, uma coisa pequena e besta surge de repente e parece grande e séria o bastante pra acabar com seu bom humor, pra te fazer querer virar uma sementinha plantada sob o edredon no escuro do quarto. Isso devia ser proibido.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

"A doidice que deixava ele doido por ela ia aumentando toda hora, todo dia, sendo muito pior no período da tarde. A vida ia indo, um dia atrás do outro, todo dia a mesma coisa, nada no mundo mudava. Mas para Antônio tudo mudou ali, exatamente naquele dia, ô dia desgraçado para as coisas desandarem, no exato momento em que ele viu o seu provável destino se recolher à sua frente, como uma passadeira vermelha que se enrolasse de volta, eita agonia miserável. Foi isso que ele sentiu naquele dia, foi ali que começou o desespero de Antônio, portanto nunca ia esquecer os detalhes. Cheguei cedo pro treino, Karina? E ela disse que não ia ter treino aquele dia não, nem treino nem ensaio, nem naquele dia nem nos próximos, que tinha chegado a hora de pôr em prática e por este motivo ela ia se embora pro mundo, no que Antônio lhe respondeu, é o mundo que você quer? Então eu trago ele pra você."

A máquina. Adriana Falcão.

domingo, 27 de março de 2011

Sempre quis ser advogada, desde criança. Quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse, a resposta era rápida. Enquanto as outras meninas queriam ser bailarinas, professoras ou veterinárias, eu queria ser advogada. E não havia qualquer justificativa para minha escolha, fossem pais advogados ou qualquer parente próximo que tivesse cursado direito. Que tipo de criança chata prefere ser advogada à bailarina? Pois é. As outras crianças costumavam, ainda, mudar de opinião constantemente. A cada hora queriam ter uma profissão diferente. Eu não. Obstinada, sempre quis ser advogada.

Aí eu me mudei para uma cidade onde havia uma universidade pública que tinha um conceituado curso de direito, cresci, fiz alguns vestibulares e pronto, dei o primeiro passo para realizar o sonho infantil.

Agora, cursando o quinto e último ano e prestes a iniciar um curso preparatório para o exame da Ordem dos Advogados do Brasil, eu, que sempre fui tão coerente, que desde criança não quis ter nenhuma outra profissão que não a de advogada, tenho me perguntado se, afinal, é isso o que eu realmente quero. Por que não ser decoradora, paisagista ou qualquer outra coisa mais leve, mais bonita, menos burocrática?

Hoje invejo minha convicção infantil. Era tão mais simples querer ser alguma coisa quando ainda faltavam muitos anos para, de fato, ser aquela coisa. Ou, quem sabe, eu tenha feito a escolha errada. Vai ver eu deveria ter escolhido ser bailarina.

quarta-feira, 23 de março de 2011

"Esse é o meu problema na vida, eu passo por ela correndo, como se estivesse sendo perseguida. Mesmo nas coisas em que só o que importa é a lentidão, como tomar um chá relaxante. Quando tomo um chá relaxante, eu o engulo como se estivesse num concurso de quem bebe chá relaxante mais depressa. Ou, se estou numa piscina aquecida com algumas pessoas e estamos todas olhando para as estrelas, eu serei a primeira a dizer: É tão bonito aqui. Quanto mais cedo você diz, É tão bonito aqui, mais depressa você pode dizer, Nossa, está quente demais pra mim."

"O homem na escada". In: É claro que você sabe do que estou falando. Miranda July. 

segunda-feira, 14 de março de 2011

I'm no superwoman

Nos últimos dias tenho sentido como se carregasse todo o peso do mundo nas costas.

Eu só espero que seja compensador o alívio de quem descarrega seu quinhão sobre os meus ombros, pra que, afinal, minha sobrecarga tenha ao menos alguma utilidade.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

"Deteve-se para chutar um pedregulho maior. Na véspera, fizera aquele mesmo trajeto em companhia de Conrado. E como lhe perguntasse o que pretendia fazer no próximo ano ele respondera, entre risonho e grave: 'Lembre-se de alguma coisa inútil e provavelmente será isso que estarei fazendo. Ouça, Virgínia, é preciso amar o inútil. Criar pombos sem pensar em comê-los, plantar roseiras sem pensar em colher rosas, escrever sem pensar em publicar, fazer coisas assim, sem esperar nada em troca. A distância mais curta entre dois pontos pode ser a linha reta, mas é nos caminhos curvos que se encontram as melhores coisas. A música - acrescentou detendo-se ao ouvir os sons de um piano num exercício ingênuo. - Este céu que nem promete chuva - prosseguiu, atirando a cabeça para trás. - Aquela estrelinha que está nascendo ali... está vendo aquela estrelinha? Há milênios não tem feito nada, não guiou os Reis Magos, nem os pastores, nem os marinheiros perdidos... Não faz nada. Apenas brilha. Ninguém repara nela porque é uma estrela inútil. Pois é preciso amar o inútil porque no inútil está a Beleza. No inútil também está Deus.'"

Ciranda de pedra. Lygia Fagundes Telles.