sábado, 2 de julho de 2011

Gosto de simplesmente perder o sono cedinho, acordar sem que seja necessário o barulho chato de um despertador tocando. A casa vazia e o silêncio das manhãs de sábado quebrado pelos passarinhos que passeiam pelo jardim, tomam banho de piscina e fazem da ração das cachorras seu café-da-manhã.

A manhã de sábado traz consigo uma esperança despretensiosa, mas que, de tão modesta e descomplicada, faz parecer que nada é impossível. Nenhum jogo é perdido, nenhuma prova é infazível e o tempo - que anda tão curto - de repente se espicha.

E faz com que músicas tristes cantadas por mocinhas de voz doce, ainda que grave, fiquem tão mais bonitas e inspiradoras...


"Yes, and the morning has me
Looking in your eyes
And seeing mine
Warning me
To read the signs
Carefully"

Nico - The fairest of the seasons

quarta-feira, 29 de junho de 2011

"Na marca dos quatorze, talvez dos quinze, dava para adivinhá-lo vestido e alimentado por seus pais mas sem um centavo no bolso, tendo que deliberar com os colegas antes de decidir entre um café, um conhaque, um maço de cigarros. Andaria pelas ruas pensando nas companheiras de estudo, no bom que seria ir ao cinema e ver o último filme, ou comprar romances ou gravatas ou garrafas de licor com rótulos verdes e brancos. Em sua casa (sua casa seria respeitável, seria almoço ao meio-dia e paisagens românticas nas paredes, com um vestíbulo escuro e um porta-guarda-chuvas de carvalho ao lado da porta), choveria devagar o tempo de estudar, de ser a esperança de mamãe, de parecer com papai, de escrever para a tia de Avignon. Por isso tanta rua, o rio todo para ele (mas sem um centavo) e a cidade misteriosa dos quinze anos, com suas marcas nas portas, seus gatos estremecedores, o saco de batata frita de trinta francos, a revista pornográfica dobrada em quatro, a solidão como um vazio no bolso, os encontros felizes, o fervor por tanta coisa incompreendida mas iluminada por um amor total, pela disponibilidade parecida com o vento e as ruas."

"As babas do diabo". In: As armas secretas. Julio Cortázar.

terça-feira, 28 de junho de 2011

A gente acha que a cura pra todos os males é esquecer o mundo e passar o dia todo de pijama em casa em uma terça-feira fria. Não é, porque, veja só, o mundo não esquece a gente. Ele está ali do outro lado da porta de braços cruzados batendo o pezinho impacientemente, esperando que você deixe de ser infantil e vá fazer o-que-tem-de-ser-feito. Afinal, além de você, não há ninguém que possa fazê-lo. E aí você, envergonhado, se vê obrigado a tirar as pantufas e recuperar o tempo que perdeu - o que, geralmente, é muito mais trabalhoso.

Dias assim servem só pra mostrar que, ao contrário do que possa parecer, por mais cansativo que seja fazer a coisa certa, ela sempre será a coisa certa a se fazer. Porque nem todas as horas de sono na cama mais macia e quentinha, nem o melhor chocolate quente e o filme mais bonito são tão satisfatórios quanto chegar ao fim do dia exausto, mas com aquela sensação boa de dever cumprido.

domingo, 19 de junho de 2011

Fugir à luta

Quando a vida exige que eu seja prosa, eu resolvo ser poesia. Se é preciso objetividade, eu quero rodear. Parece que qualquer coisa que estava há muito adormecida aqui achou por bem despertar justo agora, por puro capricho, só porque agora não pode, agora não dá. Agora não pode folhear um livro já lido e reler as páginas preferidas, marcadas por orelhas, nem assistir àquele filme que, dizem, é tão bonito, nem de repente voltar a se interessar por fotografia. É tempo de perseguir um objetivo sem se deixar distrair por futilidades, banalidades, frivolidades. Mas por que, então, só o que me interessa agora é o que não tem qualquer utilidade prática?

"Pois é preciso amar o inútil porque no inútil está a Beleza."

Eu sei, Lygia.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

"Marina arregalou os olhos e de repente tudo na sala ficou do jeito que estava. Os dois soldados, debruçados sobre as brochuras que acabaram de receber e que resumiam o que ouviram da senhora gorda, já não pareciam mais ler, já não estavam condenados como quando chegaram, já não passavam de figurantes congelados no presente. Não havia futuro nem apreensão nem medo. Por um instante, nada ia acontecer a ninguém. Não era preciso tomar nenhuma providência para impedir que as coisas acontecessem. Era uma trégua e todos respiravam."

O filho da mãe. Bernardo Carvalho.

sábado, 4 de junho de 2011

Sabe aquele sábado em que você acorda cedo porque tem uma aula chata, toma coragem pra encarar o friozinho da manhã, sai debaixo do edredon, se veste, toma um café-da-manhã gostoso e sai contente, apesar de a aula ser chata e ser sábado e cedo e de ter um monte de coisa pra estudar à tarde. Aí você põe uma música boa no som do carro, aumenta o volume e vai cantando e agradece por estar feliz, apesar de todas as chatices que a vida, a idade e as responsabilidades vêm te trazendo.

E, então, uma coisa pequena e besta surge de repente e parece grande e séria o bastante pra acabar com seu bom humor, pra te fazer querer virar uma sementinha plantada sob o edredon no escuro do quarto. Isso devia ser proibido.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

"A doidice que deixava ele doido por ela ia aumentando toda hora, todo dia, sendo muito pior no período da tarde. A vida ia indo, um dia atrás do outro, todo dia a mesma coisa, nada no mundo mudava. Mas para Antônio tudo mudou ali, exatamente naquele dia, ô dia desgraçado para as coisas desandarem, no exato momento em que ele viu o seu provável destino se recolher à sua frente, como uma passadeira vermelha que se enrolasse de volta, eita agonia miserável. Foi isso que ele sentiu naquele dia, foi ali que começou o desespero de Antônio, portanto nunca ia esquecer os detalhes. Cheguei cedo pro treino, Karina? E ela disse que não ia ter treino aquele dia não, nem treino nem ensaio, nem naquele dia nem nos próximos, que tinha chegado a hora de pôr em prática e por este motivo ela ia se embora pro mundo, no que Antônio lhe respondeu, é o mundo que você quer? Então eu trago ele pra você."

A máquina. Adriana Falcão.