quarta-feira, 29 de junho de 2011

"Na marca dos quatorze, talvez dos quinze, dava para adivinhá-lo vestido e alimentado por seus pais mas sem um centavo no bolso, tendo que deliberar com os colegas antes de decidir entre um café, um conhaque, um maço de cigarros. Andaria pelas ruas pensando nas companheiras de estudo, no bom que seria ir ao cinema e ver o último filme, ou comprar romances ou gravatas ou garrafas de licor com rótulos verdes e brancos. Em sua casa (sua casa seria respeitável, seria almoço ao meio-dia e paisagens românticas nas paredes, com um vestíbulo escuro e um porta-guarda-chuvas de carvalho ao lado da porta), choveria devagar o tempo de estudar, de ser a esperança de mamãe, de parecer com papai, de escrever para a tia de Avignon. Por isso tanta rua, o rio todo para ele (mas sem um centavo) e a cidade misteriosa dos quinze anos, com suas marcas nas portas, seus gatos estremecedores, o saco de batata frita de trinta francos, a revista pornográfica dobrada em quatro, a solidão como um vazio no bolso, os encontros felizes, o fervor por tanta coisa incompreendida mas iluminada por um amor total, pela disponibilidade parecida com o vento e as ruas."

"As babas do diabo". In: As armas secretas. Julio Cortázar.

terça-feira, 28 de junho de 2011

A gente acha que a cura pra todos os males é esquecer o mundo e passar o dia todo de pijama em casa em uma terça-feira fria. Não é, porque, veja só, o mundo não esquece a gente. Ele está ali do outro lado da porta de braços cruzados batendo o pezinho impacientemente, esperando que você deixe de ser infantil e vá fazer o-que-tem-de-ser-feito. Afinal, além de você, não há ninguém que possa fazê-lo. E aí você, envergonhado, se vê obrigado a tirar as pantufas e recuperar o tempo que perdeu - o que, geralmente, é muito mais trabalhoso.

Dias assim servem só pra mostrar que, ao contrário do que possa parecer, por mais cansativo que seja fazer a coisa certa, ela sempre será a coisa certa a se fazer. Porque nem todas as horas de sono na cama mais macia e quentinha, nem o melhor chocolate quente e o filme mais bonito são tão satisfatórios quanto chegar ao fim do dia exausto, mas com aquela sensação boa de dever cumprido.

domingo, 19 de junho de 2011

Fugir à luta

Quando a vida exige que eu seja prosa, eu resolvo ser poesia. Se é preciso objetividade, eu quero rodear. Parece que qualquer coisa que estava há muito adormecida aqui achou por bem despertar justo agora, por puro capricho, só porque agora não pode, agora não dá. Agora não pode folhear um livro já lido e reler as páginas preferidas, marcadas por orelhas, nem assistir àquele filme que, dizem, é tão bonito, nem de repente voltar a se interessar por fotografia. É tempo de perseguir um objetivo sem se deixar distrair por futilidades, banalidades, frivolidades. Mas por que, então, só o que me interessa agora é o que não tem qualquer utilidade prática?

"Pois é preciso amar o inútil porque no inútil está a Beleza."

Eu sei, Lygia.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

"Marina arregalou os olhos e de repente tudo na sala ficou do jeito que estava. Os dois soldados, debruçados sobre as brochuras que acabaram de receber e que resumiam o que ouviram da senhora gorda, já não pareciam mais ler, já não estavam condenados como quando chegaram, já não passavam de figurantes congelados no presente. Não havia futuro nem apreensão nem medo. Por um instante, nada ia acontecer a ninguém. Não era preciso tomar nenhuma providência para impedir que as coisas acontecessem. Era uma trégua e todos respiravam."

O filho da mãe. Bernardo Carvalho.

sábado, 4 de junho de 2011

Sabe aquele sábado em que você acorda cedo porque tem uma aula chata, toma coragem pra encarar o friozinho da manhã, sai debaixo do edredon, se veste, toma um café-da-manhã gostoso e sai contente, apesar de a aula ser chata e ser sábado e cedo e de ter um monte de coisa pra estudar à tarde. Aí você põe uma música boa no som do carro, aumenta o volume e vai cantando e agradece por estar feliz, apesar de todas as chatices que a vida, a idade e as responsabilidades vêm te trazendo.

E, então, uma coisa pequena e besta surge de repente e parece grande e séria o bastante pra acabar com seu bom humor, pra te fazer querer virar uma sementinha plantada sob o edredon no escuro do quarto. Isso devia ser proibido.