domingo, 22 de agosto de 2010

Porta-moedas

Não coleciono mágoas, tampouco guardo uma ou outra. Tenho memória curta, o que me traz inúmeros inconvenientes, como não lembrar o que foi estudado na aula passada. A vantagem é essa: em pouco tempo me esqueço de qualquer chateação. Há tão pouco espaço, pra quê ficar acumulando ressentimentos? Prefiro re-sentir coisas boas, dia bonito, carinho. Porque deixar-se entristecer duas vezes pelo mesmo motivo é burrice.

O acúmulo de lixo sentimental nos deixa feios, a dor de estômago que amarra a cara e amarga a boca. É um dos causadores daquela doença ruim, dizem. Aí de que adianta você banir a gordura trans do cardápio e continuar remoendo esses pesares? Saudável é ser feliz.
Às vezes, o que impede de perdoar é o medo besta de ser incoerente, desdizer-se. "Mas eu disse que jamais falaria com ela de novo." E quantas outras promessas a gente faz pra logo em seguida quebrar? A academia, as três horas diárias de estudo, ser mais paciente. Vivo me prometendo tantas coisas. Cumpro um décimo delas. Então, por que não descumprir logo a promessa maléfica? Decerto que qualquer santo perdoaria.

A mágoa, ainda que pequena, pesa mais que chumbo. E não há cofre-do-tio-patinhas que pague a sensação de leveza que dá livrar-se dela. Por isso, prefiro voltar atrás. Não tenho mais vergonha de admitir o erro. O tempo é quem melhor nos ajuda a perceber o julgamento equivocado, além de mostrar o quão pequeno é, na verdade, aquilo que parecia tão grave. E o que pode ser mais triste que ser mesquinho?

Então, fique com o troco, não faço questão dele. Afinal, nunca tive um porta-moedas.