Get me away from here, I'm dying. Play me a song to set me free. Nobody writes them like they used to, so it may as well be me.
Lendo um texto qualquer de alguém que eu não conheço, cheguei à indesejável conclusão: sou um monstro. Na verdade, já vinha caminhando para ela há algum tempo, em todas as profundas reflexões no ônibus, nas noites insones, nas aulas entediantes.
Por algum motivo que não sei explicar, antes dos 50 anos e da menopausa, sou um poço de mau-humor e preguiça. Me tornei aquilo que sempre amaldiçoei. Fiquei amarga, triste, chata, melancólica, e cada dia mais cética. Simplesmente não sei ser doce, meiga ou carinhosa. Tenho explosões de fúria por qualquer e nenhum motivo, da pasta de dente que acaba ao maldito vizinho barulhento. Minha educação desaparece em algum buraco negro, em proporções inversas a minha irritação que aumenta vertiginosamente, e me impede de ser paciente com atendentes de telemarketing ou de ceder lugar aos velhos no ônibus. Tenho mandado tudo à merda. Nem música consigo ouvir mais.
Talvez numa tentativa de diminuir minha culpa por ser um verme que espalha a ira pelo mundo, fico repetindo para mim mesma que ando estressada, sob pressão, que devo estar sendo exigente demais comigo, e que poderia, quem sabe, levar as coisas menos à sério. E então, descubro a grande mentirosa que sou. E o que é pior: engano a mim mesma. Não sou tão responsável quanto tento parecer. Na verdade, penso como alguém extremamente responsável e perfeccionista, mas ajo como uma adolescente inconseqüente. Deve vir daí a culpa que sinto por tudo o que faço, e também por aquilo que deixo de fazer. Uma ressaca moral que nunca passa.
Me sinto culpada por matar aula pra dormir até tarde e passar o dia inteiro de pijama, vendo televisão e comendo, ao invés de estudar incessantemente, lavar a louça ou levar as cachorras pra passear. Passo a quilômetros de qualquer superfície refletora pra não lembrar que estou feia, mal-arrumada ou gorda, e sentir culpa de novo por não ser mais cuidadosa. Me condeno por estar constantemente irritada e ser grossa, principalmente com quem não merece. São tantos os pecados que não mereço nem julgamento. Prisão perpétua - o que é bem pior que morrer.
Preciso de férias, férias de tudo. De casa, das mesmas pessoas, os mesmos lugares, os mesmos caminhos, dessa consciência cretina que me perturba o dia todo. Mas, principalmente, férias de mim. Porque assim, nem eu me agüento mais.
Said the hero in the story: "It is mightier than swords. I could kill you, sure. But I could only make you cry with these words".
E algumas poucas coisas me fazem sentir leve de novo.
segunda-feira, 27 de novembro de 2006
quinta-feira, 16 de novembro de 2006
Ai, ai. Acho que cansei. Escrevo textos mentais compulsivamente, textos que se recusam a virar letras. Ficam soltos, voando e batendo contra as paredes escuras da cabeça dura. Os braços moles, as mãos já não têm tanta segurança, certeza. E as coisas ficam assim, indo, with the flow. Eu é que não me atrevo a mudar o curso das coisas. A correnteza, enfim, vence. Pelo menos até que as forças sejam recuperadas. Enquanto isso, quero sombra, água fresca e um bote.
quinta-feira, 2 de novembro de 2006
segunda-feira, 30 de outubro de 2006
Tenho uma facilidade incrível de me apaixonar por personagens. Uma cena de filme, novela, uma página de livro, uma foto, pouco é mais que suficiente pra sentir um frio na barriga. Às vezes, o personagem pode até estar bem próximo, ser aquele cara da sala, ou aquele outro que freqüenta os mesmos bares. Mas isso não faz com que deixem de ser personagens. Continuam irreais, idealizados (ou ideais), ilusórios.
Aí eu percebo o quanto tudo isso é patético e, ao invés de pôr os pés de volta no chão, fico fantasiando, cultivando esses sonhos bestas e me esqueço daqueles seres reais, paupáveis, compostos de matéria orgânica. Aqueles pra quem eu olho procurando apenas defeitos, imperfeições, sapatênis, regatas, vozes fracas, insegurança, qualquer motivo que justifique o não-apaixonamento e o refúgio no conforto do meu mundo imaginário, meu mundo das idéias, eu e Platão.
Culpa do universo que parece conspirar contra. Todas as músicas falam para algum "você", casais são imprescindíveis em todos os filmes e livros, o amor domina o mundo, a tv, o rádio. Mas será mesmo que todo mundo tem necessariamente um você em quem pensar? E se não tiver, o que fazer? Recorrer aos amores platônicos ou declarar guerra à Afrodite e os malditos partidários do romantismo que foderam a humanidade com o ideal de amor romântico?
Como diria Damien Rice, loving is good if your dick is made of wood.
Aí eu percebo o quanto tudo isso é patético e, ao invés de pôr os pés de volta no chão, fico fantasiando, cultivando esses sonhos bestas e me esqueço daqueles seres reais, paupáveis, compostos de matéria orgânica. Aqueles pra quem eu olho procurando apenas defeitos, imperfeições, sapatênis, regatas, vozes fracas, insegurança, qualquer motivo que justifique o não-apaixonamento e o refúgio no conforto do meu mundo imaginário, meu mundo das idéias, eu e Platão.
Culpa do universo que parece conspirar contra. Todas as músicas falam para algum "você", casais são imprescindíveis em todos os filmes e livros, o amor domina o mundo, a tv, o rádio. Mas será mesmo que todo mundo tem necessariamente um você em quem pensar? E se não tiver, o que fazer? Recorrer aos amores platônicos ou declarar guerra à Afrodite e os malditos partidários do romantismo que foderam a humanidade com o ideal de amor romântico?
Como diria Damien Rice, loving is good if your dick is made of wood.
sábado, 28 de outubro de 2006

Batidas na porta da frente, é o tempo. Eu bebo um pouquinho pra ter argumento, mas fico sem jeito, calado e ele ri. Ele zomba do quanto eu chorei porque sabe passar e eu não sei.
Um dia azul de verão, sinto o vento. Há folhas no meu coração, é o tempo. Recordo um amor que perdi, ele ri. Diz que somos iguais, se eu notei, pois não sabe ficar e eu também não sei. E gira em volta de mim, sussurra que apaga os caminhos, que amores terminam no escuro sozinhos.
Respondo que ele aprisiona, eu liberto, que ele adormece as paixões, eu desperto. E o tempo se rói com inveja de mim, me vigia querendo aprender como eu morro de amor pra tentar reviver. No fundo é uma eterna criança que não soube amadurecer. Eu posso, ele não vai poder me esquecer.
Resposta ao Tempo, de Aldir Blanc, em homenagem ao filme-poesia A Máquina, de João Falcão.
terça-feira, 17 de outubro de 2006
Às vezes, umas coisas pequenas me fazem mudar de idéia sobre verdades que eu já tinha como absolutas. E eu me sinto imensamente feliz por ver minhas opiniões sendo trocadas por outras, novinhas em folha. Nada mais chato do que passar a vida toda sentada, tendo só um ângulo de visão, como uma fotografia imutável.
Chegar em casa à noite, depois de mais de 10 horas de aulas quase ininterruptas, e não ter pra quem contar como foi o dia, reclamar do cansaço, jantar junto, é tão triste. Até as cachorras me olham sérias, como se cobrassem o atropelo de passos, as risadas, a gritaria. E eu que pensava que não tinha medo de solidão, ligo a tv pra ouvir vozes que encham a casa, mesmo que só de mentira.
De repente, me descubro tão dependente como nunca achei que fosse. Percebo a importância de quem está sempre perto, seja rindo, brigando, apoiando ou discordando, e que quando fica longe, deixa um espaço vazio, mudo. Será que o Tom tinha mesmo razão? Será mesmo impossível ser feliz sozinho?
Defenestro minha falsa auto-suficiência e corro pra abrir a porta. Eles chegaram.
Chegar em casa à noite, depois de mais de 10 horas de aulas quase ininterruptas, e não ter pra quem contar como foi o dia, reclamar do cansaço, jantar junto, é tão triste. Até as cachorras me olham sérias, como se cobrassem o atropelo de passos, as risadas, a gritaria. E eu que pensava que não tinha medo de solidão, ligo a tv pra ouvir vozes que encham a casa, mesmo que só de mentira.
De repente, me descubro tão dependente como nunca achei que fosse. Percebo a importância de quem está sempre perto, seja rindo, brigando, apoiando ou discordando, e que quando fica longe, deixa um espaço vazio, mudo. Será que o Tom tinha mesmo razão? Será mesmo impossível ser feliz sozinho?
Defenestro minha falsa auto-suficiência e corro pra abrir a porta. Eles chegaram.
segunda-feira, 16 de outubro de 2006
Gostaria de agradecer ao meu vizinho, que comprou um carro com um som que mais parece um trio elétrico. E adora abrir o porta-malas e testar a potência da parafernália em plena hora do almoço ou nas tardes de domingo, ouvindo o melhor do rap, funk e sertanejo. Demonstrar minha enorme gratidão também à obra aqui do lado, aos caminhões que vêm e vão o dia inteiro e aos pedreiros que executam tão bela orquestra, com picaretas e betoneiras.
E por último, mas não menos importante, prestar meus mais sinceros agradecimentos aos passarinhos que fizeram ninho na minha janela, e piam histericamente das 6 da manhã às 6 da tarde. Só com a colaboração de todos foi possível vencer o vício da sesta, obrigada.
E por último, mas não menos importante, prestar meus mais sinceros agradecimentos aos passarinhos que fizeram ninho na minha janela, e piam histericamente das 6 da manhã às 6 da tarde. Só com a colaboração de todos foi possível vencer o vício da sesta, obrigada.
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