"If you gotta grow up sometime
You've to do it on your own"
Belle and Sebastian - Act of the apostle II
sábado, 7 de agosto de 2010
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
"Anoitecia. Ananta ficou parada, olhando o céu de um suave azul arroxeado. Sem vento. No ar, o perfume de Cordélia que fazia pensar num tufo de folhagem, ela gostava de perfumes como a mãe. E tinha o mesmo jeito derramado de agradecer e agradecer e agradecer - o quê? Poderia dizer-lhe em troca que ela, sim, agradecia o instante em que descobrira de repente no cabelo andrógino e no belo peito tatuado uma outra espécie de vida que era alegre e transitória e vã.
O vestíbulo estava escuro. Acendeu a luz e pensou que poderia colocar ali uma lâmpada de mil velas e a luz (verdadeira) ficara com a moça do dragão tatuado que estava neste mundo a passeio, apenas isso. E contente porque cumpria sua vocação."
As Horas Nuas. Lygia Fagundes Telles.
Às vezes queria ser mais Cordélia, menos Ananta.
domingo, 11 de julho de 2010
Aparadores e desamores
Eles viviam em uma casa sem móveis. Não que não tivessem dinheiro para comprá-los. É que não havia ali espaço para sofás de três lugares ou mesas de centro inúteis. Um amor imenso ocupava todos os cantos, escapava pelas frestas. Chegava, algumas vezes, a incomodar os vizinhos, coitados - porque ninguém é obrigado a tolerar amores alheios exibicionistas.
Ele a enxergava através de lentes coloridas de arco-íris, suas pequenezas, o jeito manhoso como esfregava os olhos miúdos ao acordar na manhã amarela e vagarosa, as unhas dos pés pintadas de rosa (coral, ela dizia) contrastando com a brancura da pele e dos lençóis. Havia em tudo dela uma leveza de pluma, como uma bailarina que fosse mais leve que o ar.
E ela, bailarina que era, tinha nele seu soldadinho de chumbo. E ainda que peso chumbinho, era ele seu soldado valente, que a protegia dos medos dela própria, que a abraçava forte, deixando o ombro umedecer até que sentisse o peito dela parar de soluçar. Então, ele, soldado passarinho, sorria com os olhos, assim de bico fechadinho, e ela entendia que ali naqueles olhos morava todo o calor que ela precisaria para se aquecer quando fosse inverno aqui dentro.
Enquanto ela rodopiava como pluma ao vento, ele a segurava com os braços de chumbo, mas macios como algodão, que era pra ela não escapar pela janela, balão desgovernado por aí. Assim é que como pluma e chumbo eles equilibravam leveza e peso, cuidando sempre de lembrar que sem um não havia o outro.
Eis que um dia, por descuido, se esqueceram de fechar as janelas. E o amor ficou por ali escapando por toda a noite, embriagando a quem passasse pela rua, fazendo com que todos se apaixonassem.
Pela manhã, os donos de todo aquele amor se deram conta do esquecimento e perceberam que ele, o amor, havia se esvaído, murchado como um balão sem gás. Então, a imensidão daquela casa sem móveis doeu e não deixou respirar, ainda que só o que houvesse ali fosse ar. Ela entendeu que a tristeza, tão pequena, precisa de móveis em que se escorar, poltronas nas quais ninguém se senta, mas úteis para preencher tanto canto vazio. E quanta imensidão cabia num reles cantinho vazio!
A moça dos olhos miúdos partiu, levando com ela as lentes de arco-íris do moço, que ficou só com seu coração de chumbo. Ela foi viver em um apartamento mobiliado. Encheu os armários de solidão, as gavetas de melancolia e comprou um passarinho que vivia em uma gaiola, como ela, triste como ela.
E naquele pequeno apartamento cheio de móveis e vazio de amor nunca se ouviu um pio.
quarta-feira, 23 de junho de 2010
domingo, 13 de junho de 2010
domingo, 6 de junho de 2010
Pobres ditados incompreendidos
Há coisas que, definitivamente, não podem ser mudadas. Disso todo mundo sabe. Tanto é que existe um ditado popular, sábio como todos eles o são, que afirma que aquilo que não tem remédio... todo mundo também sabe o final.
E como é possível que essas frases feitas repetidas ano após ano, desde há muitas e muitas décadas, até se tornarem clichê, não sejam, de fato, compreendidas? O que deveria ser senso comum se mostra uma grande descoberta. Porque acabamos levando um certo tempo até entender que se, independentemente do que você tenha feito a respeito, determinadas situações não puderam ser alteradas, isso não significa que você tenha sido incompetente, mas simplesmente que não depende de você, não está sob seu controle.
Aí, quando você finalmente compreende isso, ainda que já não seja pela primeira vez (afinal, você já chegou a essa conclusão antes), é que o clichê se revela: já que não há o que se possa fazer, o que resta apenas é simplesmente não se importar. E olha, tudo fica infinitamente mais fácil assim. Óbvio, né? Não.
É quando a música aí embaixo faz ainda mais sentido. You've got to be kind to yourself.
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