segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

A gente segue achando que tem tudo sob controle, mas não sabe nem o que acontece no quarto ao lado. E quando percebe, a parede que divide o meu quarto e o seu, na verdade divide o meu mundo do seu. Mundos tão próximos quanto diferentes. E eu sinto saudade de uma época que nem mesmo sei se existiu além dos álbuns de infância esquecidos no baú velho.

Ah, se eu soubesse dizer o quanto gosto de você; e a vontade que tenho de te proteger, de não te deixar errar os mesmos erros que eu. Mas eu não sei.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

Haviam chegado ainda ontem da viagem de férias. Foram dez dias na praia, com toda a família e muita chuva. Não tinha sido uma ótima viagem exatamente. Ela achava que ele não havia lhe dado a atenção necessária. Ele, que ela não tinha sido muito compreensiva.

Ela reclama com a mãe no telefone a falta da faxineira, enquanto ele assiste à tv. Um motivo insignificante para começar uma discussão. Aparentemente. Ele faz um comentário desnecessário, ela considera uma provocação. O tom de voz se eleva, algumas acusações, insultos. Ela finalmente cospe aqueles dez dias que estavam presos em sua garganta. Mais, diz que este ano vai ser diferente, não vai mais ser escrava de ninguém. Desenterra lembranças de anos tão distantes quanto os cômodos em que dormem agora.

E chora o casamento, a carreira frustrada, as filhas pouco amorosas, a falta de reconhecimento, as fotos perdidas da viagem. Enquanto ele assiste à tv.
Um grande saco de lixo. Não, um imenso saco de lixo. Do tamanho do céu e o mar, e a chuva que faz tudo água e emenda os dois num cinza infinito. Um saco gigante, onde caibam todas as angústias, frustrações, decepções; o desequilíbrio e os rompantes, os nós na garganta, os meios interrompidos por fins intrometidos; e a melancolia que não sai de mim, não sai de mim, não sai. E toda essa profundidade que não leva a lugar algum, esses limites-tijolos que construíram um muro em volta. O medo e a vergonha que impedem de cantar.

Uma nave espacial. Um foguete pra levar todo esse lixo cósmico pra algum lugar bem distante, do outro lado do universo. Imprescindível que seja completamente destruído devido à alta toxicidade. Uma grande explosão. Uma bomba atômica do outro lado do universo, na galáxia mais distante, pra reduzir o lixo a pedacinhos tão pequenos que virem poeira estelar.

E luz. Seja sol, seja lua. Estrela, lanterna ou vagalume. Deixa pra lá o escuro da sombra, do buraco; a solitude de ser só e ser eu, e ser só eu. E nós, a gente, todo mundo. E cores. Todas elas. Larga esse monocromatismo, esse preto e branco que impede de ser um pouco arco-íris às vezes, por quê não? E vento. Tudo que há de leve, que voe, flutue. Vestidos coloridos e rodados. E música. Todas que possam ser acompanhadas por suaves balanços de cabeça e batidinhas de pé, e vestidos coloridos rodando. E mansidão. Fala devagarinho, baixinho, e sorri. Delicadeza, harmonia, fluidez. Tudo assim, macio. Uma montanha de algodão, um sorvete de creme, uma bossa.

E poesia. Em tudo. Na luz, na gente, nas cores, no vento. E os abraços hão de ser milhões de abraços, apertado assim, colado assim, calado assim. Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

E de onde vem tanta metade, meu Deus? Será que todo início perdeu seu fim?

sábado, 23 de dezembro de 2006

Disca um número de telefone qualquer e contempla tua própria ruína.

Ana Cristina César e uma apunhalada.

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

A-ca-bou. Fim das provas, fim da tortura, fim do ano. Agora são férias, sol, sal, samba, suor e cerveja (que bem podia ser com 's').

Não que o verão me atraia, eu deixaria pra mais tarde sem pensar muito. Mas o que realmente importa aqui é o mês de total e completo ócio. Absolutamente nada pra fazer, juntamente com muito tempo pra fazer nada. Amém!

domingo, 17 de dezembro de 2006

É como olhar o céu com a lâmpada acesa. Você olha e não vê nada além da cortina preta. Mas basta apagar as luzes e a cortina se abre, revelando um sem fim de luzinhas, como que num grande palco. Quanto mais se olha, maiores parecem ficar. Vaidosas que são, brilham com toda intensidade possível. Cada uma quer para si o centro do palco.

Mas num instante de descuido, uma delas se desprende do teto preto e cai. Não sem deixar um risco cintilante por onde passa, até desaparecer completamente. A saída triunfal.