segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Ímpar

Quase. Parece fácil, mas não é. Aliás, é até mais difícil que tudo e nada. É quase, por pouco. É uma linha, o muro, é lá nem cá. E quem disse que se equilibrar é simples? Não tem cama elástica lá embaixo. Fácil é ficar olhando do chão, com os pés bem firmes, achando graça da quase queda do equilibrista.

Pode ser meio também. Quem sabe, quase-meio? Não chega nem à metade, é pouco. Mas por que tem que ser muito? Não precisa ser sempre intenso, inteiro. Pouco às vezes é suficiente. Sobrar pode ser desperdício. Há quem diga que homeopatia funciona.

E se eu sou quase bonita, ou meio feia, um pouco inteligente, meio magra e um tanto estranha. Se os olhos são só um pouco verdes, o nariz meio grande, e o humor quase bom. Se não sou muito educada e falo palavrão, e às vezes fico um pouco desagradável. Talvez ande quase rápido e um pouco curvada, olhando pra algum lugar que não seja a frente. Pode ser que tenha um pouco de medo.

Gosto pouco, penso muito. Algumas coisas não têm meio. Outras, quem sabe, resolvam tornar-se pares, dividam-se em/por dois. E talvez eu seja uma das metades. De meio em meio, um dia, eu fico inteira.

domingo, 3 de dezembro de 2006

Quem disse que a água é o solvente universal nunca bebeu uma cerveja (talvez tenho bebido, mas só uma). O álcool sim é merecedor do título, dilui qualquer tipo de problema. Portanto - se é que você ainda não entendeu - fique bêbado e jamais terá problemas insolúveis.
Take me out tonight where there's music and there's people who are young and alive, because I want to see people and I want to see light.

Morrisey, com sua luz que nunca se apaga, certamente me entenderia.

sábado, 2 de dezembro de 2006

Você está passando por um momento difícil? Calma. Vai passar. Olhe, não fique assim, não, vai passar. Eu sei como dói. É horrível. Eu sei que parece que vai explodir, mas não explode. Sei que dá vontade de abrir um zíper nas costas e sair do corpo porque dentro da gente não é um bom lugar pra se estar. (Fernando Pessoa escreveu, num momento parecido, "hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu").

Dor é assim mesmo, arde, depois passa. Que bom. Aliás, a vida é assim: arde, depois passa. Que pena. A gente acha que não vai agüentar, mas agüenta: as dores e a vida. Pense assim: agora tá insuportável, agora você queria abrir o zíper, sair do corpo, encarnar numa samambaia, virar um paralelepípedo ou qualquer coisa inanimada, anestesiada, silenciosa. Mas agora já passou. Agora já é dez segundos depois da frase passada. Sua dor já é dez segundos menor do que duas linhas atrás.

Você acha que não, porque esperar a dor passar é como olhar um transatlântico no horizonte estando na praia. Ele parece parado, mas aí você desvia o olho, toma um picolé, lê uma revista, dá um pulo no mar e quando vai ver o barco já tá lá longe. A sua dor agora, essa fogueira na sua barriga, esse chumbo na sua garganta, essa sensação de que pegaram a sua traquéia e seu estômago e torceram como uma toalha molhada, isso tudo - é difícil de acreditar, eu sei - vai virar só uma memória, um pequeno ponto negro diluído num imenso mar de memórias. Levante-se daí, vá tomar um picolé, ler uma revista, dar um pulo no mar. Quando você for ver, passou.

Agora não dá mesmo pra ser feliz. É impossível. Mas quem disse que a gente deve ser feliz sempre? Isso é uma bobagem. Como cantou Vinícius: "É melhor viver do que ser feliz". Porque pra viver de verdade a gente tem que quebrar a cara. Tem que tentar e não conseguir. Achar que vai dar e ver que não deu. Querer muito e não alcançar. Ter e perder. Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e dizer uma coisa terrível, mas que tem que ser dita. Tem que ter coragem de olhar fundo nos olhos de quem a gente ama e ouvir uma coisa terrível, que tem que ser ouvida. A vida é incontornável. A gente perde, leva porrada, é passado pra trás, cai. Dói, ai, eu sei como dói. Mas passa.

Tá vendo a felicidade ali na frente? Não, você não tá vendo, porque tem uma montanha de dor na frente. Continue andando. Você vai subir, vai sentir frio lá em cima, cansaço. Vai querer desistir, mas não vai desistir, porque você é forte e porque depois do topo a montanha começa a diminuir e o único jeito de deixá-la pra trás é continuar andando. Você vai ser feliz.

Tá vendo essa dor que agora samba no seu peito de salto agulha? Você ainda vai olhá-la no fundo dos olhos e rir da cara dela. Juro que tô falando a verdade. Eu não minto. Vai passar.


Não, não é auto-ajuda. É Antonio Prata, o guru da minha adolescência - aquela época em que eu era leitora assídua de Capricho - que respondeu minhas perguntas sem resposta e tornou a terapia desnecessária, e com quem eu jurei um dia me casar. Não leio mais Capricho, e talvez por isso às vezes me esqueça que a adolescência ainda não acabou. E que as perguntas sem resposta não se restringem à adolescência, duram a vida toda.

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

Get me away from here, I'm dying. Play me a song to set me free. Nobody writes them like they used to, so it may as well be me.

Lendo um texto qualquer de alguém que eu não conheço, cheguei à indesejável conclusão: sou um monstro. Na verdade, já vinha caminhando para ela há algum tempo, em todas as profundas reflexões no ônibus, nas noites insones, nas aulas entediantes.

Por algum motivo que não sei explicar, antes dos 50 anos e da menopausa, sou um poço de mau-humor e preguiça. Me tornei aquilo que sempre amaldiçoei. Fiquei amarga, triste, chata, melancólica, e cada dia mais cética. Simplesmente não sei ser doce, meiga ou carinhosa. Tenho explosões de fúria por qualquer e nenhum motivo, da pasta de dente que acaba ao maldito vizinho barulhento. Minha educação desaparece em algum buraco negro, em proporções inversas a minha irritação que aumenta vertiginosamente, e me impede de ser paciente com atendentes de telemarketing ou de ceder lugar aos velhos no ônibus. Tenho mandado tudo à merda. Nem música consigo ouvir mais.

Talvez numa tentativa de diminuir minha culpa por ser um verme que espalha a ira pelo mundo, fico repetindo para mim mesma que ando estressada, sob pressão, que devo estar sendo exigente demais comigo, e que poderia, quem sabe, levar as coisas menos à sério. E então, descubro a grande mentirosa que sou. E o que é pior: engano a mim mesma. Não sou tão responsável quanto tento parecer. Na verdade, penso como alguém extremamente responsável e perfeccionista, mas ajo como uma adolescente inconseqüente. Deve vir daí a culpa que sinto por tudo o que faço, e também por aquilo que deixo de fazer. Uma ressaca moral que nunca passa.

Me sinto culpada por matar aula pra dormir até tarde e passar o dia inteiro de pijama, vendo televisão e comendo, ao invés de estudar incessantemente, lavar a louça ou levar as cachorras pra passear. Passo a quilômetros de qualquer superfície refletora pra não lembrar que estou feia, mal-arrumada ou gorda, e sentir culpa de novo por não ser mais cuidadosa. Me condeno por estar constantemente irritada e ser grossa, principalmente com quem não merece. São tantos os pecados que não mereço nem julgamento. Prisão perpétua - o que é bem pior que morrer.

Preciso de férias, férias de tudo. De casa, das mesmas pessoas, os mesmos lugares, os mesmos caminhos, dessa consciência cretina que me perturba o dia todo. Mas, principalmente, férias de mim. Porque assim, nem eu me agüento mais.

Said the hero in the story: "It is mightier than swords. I could kill you, sure. But I could only make you cry with these words".

E algumas poucas coisas me fazem sentir leve de novo.

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Ai, ai. Acho que cansei. Escrevo textos mentais compulsivamente, textos que se recusam a virar letras. Ficam soltos, voando e batendo contra as paredes escuras da cabeça dura. Os braços moles, as mãos já não têm tanta segurança, certeza. E as coisas ficam assim, indo, with the flow. Eu é que não me atrevo a mudar o curso das coisas. A correnteza, enfim, vence. Pelo menos até que as forças sejam recuperadas. Enquanto isso, quero sombra, água fresca e um bote.

quinta-feira, 2 de novembro de 2006

Uma angústia inexplicável dentro do peito. A vontade do nada. Tédio, olhos fixos na parede vermelha. As mãos irrequietas e o coração. Vazio. Aí vem a chuva, e traz (de volta) com ela a calma.

Aqui, a calmaria não vem depois da tempestade, vem junto. De mãos dadas.