Deixa a acomodação e o egoísmo pra lá. Anda tudo tão tranqüilo ultimamente que não tenho tido nem vontade de reclamar. E olha que esse é um dos meus esportes favoritos. Sabe quando as coisas vão bem? Pois é. A faculdade, os amigos, a família, aquele cara legal. Tudo na mais perfeita ordem. Estranho, não? Talvez não. É que a gente está tão acostumada a estar sempre cercada de problemas e preocupações de todo tipo que quando as coisas simplesmente dão certo, desconfia. Sempre bom manter um pé atrás, eu sei; evitar acidentes. Mas pra quem viveu a vida toda assim, um pouco de precaução a menos faz bem. Não precisa pular de cabeça, é claro. Assim como cada passo não deve ser, necessariamente, calculado. Enfim, parece que alguém aí anda editando as "sad parts" por mim. E olha, eu não me incomodo, tá?
Muito provavelmente seja devido a isso esse hiato criativo, essa falta do que escrever. A paz não inspira, não desperta. Assim calma, silenciosa, adormece - ainda que com um sorriso no rosto. E se tempestade e calmaria andam juntas, prefiro nem pensar no que vem por aí.
quinta-feira, 31 de maio de 2007
terça-feira, 22 de maio de 2007
Só isso
"Quando adolescente, preparava fita-cassete para a namorada. Melhor do que falar, montava uma trilha para expressar o que sentia. As baladas me explicavam. As letras guardavam o que não decorava. Ainda mantenho a perícia de enrolar a fita, que sempre soltava na época, com a caneta bic.
Mas não era assim fácil: tinha que escolher as músicas do rádio. Levava noites em claro para encontrar as prediletas. Não podia bobear. Com muito café e cigarro, havia que estar desperto para iniciar e terminar a música no tempo certo. A distância entre os meus dedos é a mesma que existe entre os botões REC E PLAY - aceito medir.
A voz do locutor complicava o trabalho. Aparecia do nada para identificar a estação. Já no finalzinho, despontava como relâmpago impossível de conter. Replicava o comercial e arruinava meu romantismo. Obrigava-me a montagem, apagar a dicção do radialista sem prejudicar o andamento da música. Ou adivinhar, pelo excesso de ouvir, quando iria surgir e me antecipar ao grito de feirante.
Se eu pudesse preservar as vozes das mulheres que ouvi ao longo dos últimos anos, gravaria uma última fita-cassete, algo bem simples, que deixaria ao meu filho.
As canções diriam:
Uma mulher não perdoa uma única coisa no homem: que ele não ame com coragem. Pode ter os maiores defeitos, atrasar-se para os compromissos, jogar futebol no sábado com os amigos, soltar gargalhada de hiena, pentear-se com franjinha, ter pêlos nas costas e no pescoço, usar palito de dente, trocar os talheres de um momento para outro.
Qualquer coisa é admitida, menos que não ame com coragem.
Amar com coragem não é viver com coragem. É bem mais do que estar aí. Amar com coragem não é questão de estilo, de gosto, de opinião. Não se adquire com a família, surge de uma decisão solitária. Amar com coragem é caráter. Vem de uma obstinação que supera a lealdade. Vem de uma incompetência de ser diferente.
Amar para valer, para dar torcicolo. Não encontrar uma desculpa ou um pretexto para se adaptar, para fugir, para não nadar até o começo do corpo. Não usar atenuantes como "estou confuso". Não se diminuir com a insegurança, mas se aumentar com a insegurança. Não se retrair perante os pais. Não desmarcar um amor pela amizade. Não esquecer de comentar pelo receio de ser incompreendido. Não esquecer de repetir pela ânsia da claridade. Amar como se não houvesse tempo de amar. Amar esquisito, de lado, ainda amar. Amar atrasado, com a respiração antecipando o beijo. Amar com fúria, com o recalque de não ter sido assim antes. Amar decidido, obcecado, como quem troca de identidade e parte a um longo exílio. Amar como quem volta de um longo exílio. Amar com sofreguidão, não adiando o que é véspera. Amar não disfarçando as mãos, amar com os fantoches das mangas. Amar como uma canoa engatinha na margem, árvore deitada de bruços. Amar quase que por desforra, por bebedeira, amar sem dizer por que ama. Amar desavisado, com vírgula entre o sujeito e o verbo. Amar desatinado, pressionando a amar mais, a amar mais do que é possível lembrar.
Amar com coragem, só isso."
Fabrício Carpinejar
"Quando adolescente, preparava fita-cassete para a namorada. Melhor do que falar, montava uma trilha para expressar o que sentia. As baladas me explicavam. As letras guardavam o que não decorava. Ainda mantenho a perícia de enrolar a fita, que sempre soltava na época, com a caneta bic.
Mas não era assim fácil: tinha que escolher as músicas do rádio. Levava noites em claro para encontrar as prediletas. Não podia bobear. Com muito café e cigarro, havia que estar desperto para iniciar e terminar a música no tempo certo. A distância entre os meus dedos é a mesma que existe entre os botões REC E PLAY - aceito medir.
A voz do locutor complicava o trabalho. Aparecia do nada para identificar a estação. Já no finalzinho, despontava como relâmpago impossível de conter. Replicava o comercial e arruinava meu romantismo. Obrigava-me a montagem, apagar a dicção do radialista sem prejudicar o andamento da música. Ou adivinhar, pelo excesso de ouvir, quando iria surgir e me antecipar ao grito de feirante.
Se eu pudesse preservar as vozes das mulheres que ouvi ao longo dos últimos anos, gravaria uma última fita-cassete, algo bem simples, que deixaria ao meu filho.
As canções diriam:
Uma mulher não perdoa uma única coisa no homem: que ele não ame com coragem. Pode ter os maiores defeitos, atrasar-se para os compromissos, jogar futebol no sábado com os amigos, soltar gargalhada de hiena, pentear-se com franjinha, ter pêlos nas costas e no pescoço, usar palito de dente, trocar os talheres de um momento para outro.
Qualquer coisa é admitida, menos que não ame com coragem.
Amar com coragem não é viver com coragem. É bem mais do que estar aí. Amar com coragem não é questão de estilo, de gosto, de opinião. Não se adquire com a família, surge de uma decisão solitária. Amar com coragem é caráter. Vem de uma obstinação que supera a lealdade. Vem de uma incompetência de ser diferente.
Amar para valer, para dar torcicolo. Não encontrar uma desculpa ou um pretexto para se adaptar, para fugir, para não nadar até o começo do corpo. Não usar atenuantes como "estou confuso". Não se diminuir com a insegurança, mas se aumentar com a insegurança. Não se retrair perante os pais. Não desmarcar um amor pela amizade. Não esquecer de comentar pelo receio de ser incompreendido. Não esquecer de repetir pela ânsia da claridade. Amar como se não houvesse tempo de amar. Amar esquisito, de lado, ainda amar. Amar atrasado, com a respiração antecipando o beijo. Amar com fúria, com o recalque de não ter sido assim antes. Amar decidido, obcecado, como quem troca de identidade e parte a um longo exílio. Amar como quem volta de um longo exílio. Amar com sofreguidão, não adiando o que é véspera. Amar não disfarçando as mãos, amar com os fantoches das mangas. Amar como uma canoa engatinha na margem, árvore deitada de bruços. Amar quase que por desforra, por bebedeira, amar sem dizer por que ama. Amar desavisado, com vírgula entre o sujeito e o verbo. Amar desatinado, pressionando a amar mais, a amar mais do que é possível lembrar.
Amar com coragem, só isso."
Fabrício Carpinejar
segunda-feira, 21 de maio de 2007
quarta-feira, 16 de maio de 2007
terça-feira, 15 de maio de 2007
A menina se senta cansada. Tanto finge ser mulher, tão moderna. Tanto procura razão, ração. Perde-se em meio a tantos livros, teorias, doutrinas. Chora o lirismo que se esvai com a maquiagem pelo ralo do banheiro.
Um banho quente para sempre, lençóis limpos, manhã chuvosa. E a branca e fria proteção dos azulejos. Um inverno inteiro para si, mais ninguém. Mas este outono insiste em ser verão.
Um banho quente para sempre, lençóis limpos, manhã chuvosa. E a branca e fria proteção dos azulejos. Um inverno inteiro para si, mais ninguém. Mas este outono insiste em ser verão.
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