Era qual um gato. E ao ouvir a campainha, corria para dentro e esparramava-se no sofá, como quem estivesse ali há horas. Fazia que não sabia da minha vinda, para mais tarde ronronar saudade e enroscar-se entre minhas pernas. O retrato do avô na parede era testemunha única.
Sentado na varanda, de chinelo e meias, recitava poemas românticos - que eu julgava piegas. Mas mal me continha quando, ao tragar o cigarro, apertava os olhos já miúdos.
Como eram bonitas aquelas noites.
terça-feira, 30 de janeiro de 2007
segunda-feira, 29 de janeiro de 2007
quinta-feira, 25 de janeiro de 2007
Sempre tive comigo um grande desapontamento: nunca tive inimigos. Alguns pequenos desafetos apenas, antipatias gratuitas, mas nunca inimigos. E todas as vezes em que via alguém reclamando de falsidade e dizendo que não podia confiar em ninguém, confesso que sentia uma pontada de ciúme. Aquelas pessoas eram tão incríveis que, além de merecer todo amor e admiração do mundo, eram dignas de ódio. Suas vidas eram infernizadas por vilões misteriosos. Nas ruas, eram perseguidas por paparazzis.
Que vidinha medíocre era a minha que não despertava sequer a inveja de um ou dois anônimos? Precisava de um inimigo. Mas não queria ter de conquistar um, ele deveria vir de maneira natural, como um urubu farejando podridão (oh!). Analisei potenciais adversários - verdade, não eram muitos -, prestei atenção ao meu redor - segundo os odiados, sempre há uma cobra próxima pronta a dar o bote. Infelizmente, minha busca foi frustrada. Ninguém parecia querer espalhar intrigas a meu respeito, puxar meu tapete, me sabotar. Todos a minha volta tinham sorrisos amáveis e bons corações - nem tanto. Hoje sei que os pobres perseguidos sofrem de uma grave síndrome que tem como sintomas mania de perseguição, egocentrismo, megalomania; podendo chegar, em alguns casos já avançados, à esquizofrenia.
Continuo sem inimigos. Pelo menos, nenhum de que tenha conhecimento. Entretanto, com muito esforço, pude suprir essa falta com um tanto de bons amigos. Considero-me curada. Mas é preciso ter cuidado. Afinal, o lema é um dia de cada vez.
Que vidinha medíocre era a minha que não despertava sequer a inveja de um ou dois anônimos? Precisava de um inimigo. Mas não queria ter de conquistar um, ele deveria vir de maneira natural, como um urubu farejando podridão (oh!). Analisei potenciais adversários - verdade, não eram muitos -, prestei atenção ao meu redor - segundo os odiados, sempre há uma cobra próxima pronta a dar o bote. Infelizmente, minha busca foi frustrada. Ninguém parecia querer espalhar intrigas a meu respeito, puxar meu tapete, me sabotar. Todos a minha volta tinham sorrisos amáveis e bons corações - nem tanto. Hoje sei que os pobres perseguidos sofrem de uma grave síndrome que tem como sintomas mania de perseguição, egocentrismo, megalomania; podendo chegar, em alguns casos já avançados, à esquizofrenia.
Continuo sem inimigos. Pelo menos, nenhum de que tenha conhecimento. Entretanto, com muito esforço, pude suprir essa falta com um tanto de bons amigos. Considero-me curada. Mas é preciso ter cuidado. Afinal, o lema é um dia de cada vez.
terça-feira, 23 de janeiro de 2007
Some people think they're always right. Others are quiet and uptight, others they seem so very nice. Inside they might feel sad and wrong. Twenty-nine different attributes and only seven that you like. Twenty ways to see the world or twenty ways to start a fight.
Don't get out, I can't see the sunshine. I'll be waiting for you, baby, 'cause I'm through. Sit me down, shut me up. I'll calm down and I'll get along with you.
A man don't notice what they got, women think of that a lot. A thousand ways to please your man, not even one requires a plan. I know countless odd religions too, it doesn't matter which you choose. One stubborn way to turn your back, this I've tried, and now refuse.
And we only live once.
Don't get out, I can't see the sunshine. I'll be waiting for you, baby, 'cause I'm through. Sit me down, shut me up. I'll calm down and I'll get along with you.
A man don't notice what they got, women think of that a lot. A thousand ways to please your man, not even one requires a plan. I know countless odd religions too, it doesn't matter which you choose. One stubborn way to turn your back, this I've tried, and now refuse.
And we only live once.
quarta-feira, 17 de janeiro de 2007
No início, era um dom natural, aptidão. Como quando a criança de dez anos ganhou o prêmio de melhor redação. O tema era meio ambiente, e a corretora confirmara: a obra estava em nível de ensino médio, na quarta série. Um prodígio! Mamãe ficara contente com o ano de mensalidades grátis.
O tempo passava - sempre passa, involuntariamente - e nenhum best-seller havia sido escrito pelo pequeno gênio. Tentou manter um diário, o qual não durou muitos meses. Muitos anos depois, mais um prêmio, mais um tema policamente correto qualquer e nenhuma esperança de uma promissora carreira literária. O mundo é mesmo um moinho e, se você não fica atento, tritura seus sonhos tão mesquinhos sem piedade alguma.
O que antes ousou-se chamar de aptidão, hoje não passa de mera facilidade. Nada muito além disso. Simples capacidade de ordenar palavras, e uma incompetência enorme em expressar qualquer sentimento, do mais grandioso ao mais banal. Nenhum orgulho, apenas a estranha necessidade de pôr no papel (?) o que insiste em não ser esquecido. Se ainda escrevo, é porque não tenho dinheiro para um analista.
O tempo passava - sempre passa, involuntariamente - e nenhum best-seller havia sido escrito pelo pequeno gênio. Tentou manter um diário, o qual não durou muitos meses. Muitos anos depois, mais um prêmio, mais um tema policamente correto qualquer e nenhuma esperança de uma promissora carreira literária. O mundo é mesmo um moinho e, se você não fica atento, tritura seus sonhos tão mesquinhos sem piedade alguma.
O que antes ousou-se chamar de aptidão, hoje não passa de mera facilidade. Nada muito além disso. Simples capacidade de ordenar palavras, e uma incompetência enorme em expressar qualquer sentimento, do mais grandioso ao mais banal. Nenhum orgulho, apenas a estranha necessidade de pôr no papel (?) o que insiste em não ser esquecido. Se ainda escrevo, é porque não tenho dinheiro para um analista.
segunda-feira, 15 de janeiro de 2007
A gente segue achando que tem tudo sob controle, mas não sabe nem o que acontece no quarto ao lado. E quando percebe, a parede que divide o meu quarto e o seu, na verdade divide o meu mundo do seu. Mundos tão próximos quanto diferentes. E eu sinto saudade de uma época que nem mesmo sei se existiu além dos álbuns de infância esquecidos no baú velho.
Ah, se eu soubesse dizer o quanto gosto de você; e a vontade que tenho de te proteger, de não te deixar errar os mesmos erros que eu. Mas eu não sei.
Ah, se eu soubesse dizer o quanto gosto de você; e a vontade que tenho de te proteger, de não te deixar errar os mesmos erros que eu. Mas eu não sei.
segunda-feira, 8 de janeiro de 2007
Haviam chegado ainda ontem da viagem de férias. Foram dez dias na praia, com toda a família e muita chuva. Não tinha sido uma ótima viagem exatamente. Ela achava que ele não havia lhe dado a atenção necessária. Ele, que ela não tinha sido muito compreensiva.
Ela reclama com a mãe no telefone a falta da faxineira, enquanto ele assiste à tv. Um motivo insignificante para começar uma discussão. Aparentemente. Ele faz um comentário desnecessário, ela considera uma provocação. O tom de voz se eleva, algumas acusações, insultos. Ela finalmente cospe aqueles dez dias que estavam presos em sua garganta. Mais, diz que este ano vai ser diferente, não vai mais ser escrava de ninguém. Desenterra lembranças de anos tão distantes quanto os cômodos em que dormem agora.
E chora o casamento, a carreira frustrada, as filhas pouco amorosas, a falta de reconhecimento, as fotos perdidas da viagem. Enquanto ele assiste à tv.
Ela reclama com a mãe no telefone a falta da faxineira, enquanto ele assiste à tv. Um motivo insignificante para começar uma discussão. Aparentemente. Ele faz um comentário desnecessário, ela considera uma provocação. O tom de voz se eleva, algumas acusações, insultos. Ela finalmente cospe aqueles dez dias que estavam presos em sua garganta. Mais, diz que este ano vai ser diferente, não vai mais ser escrava de ninguém. Desenterra lembranças de anos tão distantes quanto os cômodos em que dormem agora.
E chora o casamento, a carreira frustrada, as filhas pouco amorosas, a falta de reconhecimento, as fotos perdidas da viagem. Enquanto ele assiste à tv.
Um grande saco de lixo. Não, um imenso saco de lixo. Do tamanho do céu e o mar, e a chuva que faz tudo água e emenda os dois num cinza infinito. Um saco gigante, onde caibam todas as angústias, frustrações, decepções; o desequilíbrio e os rompantes, os nós na garganta, os meios interrompidos por fins intrometidos; e a melancolia que não sai de mim, não sai de mim, não sai. E toda essa profundidade que não leva a lugar algum, esses limites-tijolos que construíram um muro em volta. O medo e a vergonha que impedem de cantar.
Uma nave espacial. Um foguete pra levar todo esse lixo cósmico pra algum lugar bem distante, do outro lado do universo. Imprescindível que seja completamente destruído devido à alta toxicidade. Uma grande explosão. Uma bomba atômica do outro lado do universo, na galáxia mais distante, pra reduzir o lixo a pedacinhos tão pequenos que virem poeira estelar.
E luz. Seja sol, seja lua. Estrela, lanterna ou vagalume. Deixa pra lá o escuro da sombra, do buraco; a solitude de ser só e ser eu, e ser só eu. E nós, a gente, todo mundo. E cores. Todas elas. Larga esse monocromatismo, esse preto e branco que impede de ser um pouco arco-íris às vezes, por quê não? E vento. Tudo que há de leve, que voe, flutue. Vestidos coloridos e rodados. E música. Todas que possam ser acompanhadas por suaves balanços de cabeça e batidinhas de pé, e vestidos coloridos rodando. E mansidão. Fala devagarinho, baixinho, e sorri. Delicadeza, harmonia, fluidez. Tudo assim, macio. Uma montanha de algodão, um sorvete de creme, uma bossa.
E poesia. Em tudo. Na luz, na gente, nas cores, no vento. E os abraços hão de ser milhões de abraços, apertado assim, colado assim, calado assim. Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim.
Uma nave espacial. Um foguete pra levar todo esse lixo cósmico pra algum lugar bem distante, do outro lado do universo. Imprescindível que seja completamente destruído devido à alta toxicidade. Uma grande explosão. Uma bomba atômica do outro lado do universo, na galáxia mais distante, pra reduzir o lixo a pedacinhos tão pequenos que virem poeira estelar.
E luz. Seja sol, seja lua. Estrela, lanterna ou vagalume. Deixa pra lá o escuro da sombra, do buraco; a solitude de ser só e ser eu, e ser só eu. E nós, a gente, todo mundo. E cores. Todas elas. Larga esse monocromatismo, esse preto e branco que impede de ser um pouco arco-íris às vezes, por quê não? E vento. Tudo que há de leve, que voe, flutue. Vestidos coloridos e rodados. E música. Todas que possam ser acompanhadas por suaves balanços de cabeça e batidinhas de pé, e vestidos coloridos rodando. E mansidão. Fala devagarinho, baixinho, e sorri. Delicadeza, harmonia, fluidez. Tudo assim, macio. Uma montanha de algodão, um sorvete de creme, uma bossa.
E poesia. Em tudo. Na luz, na gente, nas cores, no vento. E os abraços hão de ser milhões de abraços, apertado assim, colado assim, calado assim. Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim.
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