Tenho uma facilidade incrível de me apaixonar por personagens. Uma cena de filme, novela, uma página de livro, uma foto, pouco é mais que suficiente pra sentir um frio na barriga. Às vezes, o personagem pode até estar bem próximo, ser aquele cara da sala, ou aquele outro que freqüenta os mesmos bares. Mas isso não faz com que deixem de ser personagens. Continuam irreais, idealizados (ou ideais), ilusórios.
Aí eu percebo o quanto tudo isso é patético e, ao invés de pôr os pés de volta no chão, fico fantasiando, cultivando esses sonhos bestas e me esqueço daqueles seres reais, paupáveis, compostos de matéria orgânica. Aqueles pra quem eu olho procurando apenas defeitos, imperfeições, sapatênis, regatas, vozes fracas, insegurança, qualquer motivo que justifique o não-apaixonamento e o refúgio no conforto do meu mundo imaginário, meu mundo das idéias, eu e Platão.
Culpa do universo que parece conspirar contra. Todas as músicas falam para algum "você", casais são imprescindíveis em todos os filmes e livros, o amor domina o mundo, a tv, o rádio. Mas será mesmo que todo mundo tem necessariamente um você em quem pensar? E se não tiver, o que fazer? Recorrer aos amores platônicos ou declarar guerra à Afrodite e os malditos partidários do romantismo que foderam a humanidade com o ideal de amor romântico?
Como diria Damien Rice, loving is good if your dick is made of wood.
segunda-feira, 30 de outubro de 2006
sábado, 28 de outubro de 2006

Batidas na porta da frente, é o tempo. Eu bebo um pouquinho pra ter argumento, mas fico sem jeito, calado e ele ri. Ele zomba do quanto eu chorei porque sabe passar e eu não sei.
Um dia azul de verão, sinto o vento. Há folhas no meu coração, é o tempo. Recordo um amor que perdi, ele ri. Diz que somos iguais, se eu notei, pois não sabe ficar e eu também não sei. E gira em volta de mim, sussurra que apaga os caminhos, que amores terminam no escuro sozinhos.
Respondo que ele aprisiona, eu liberto, que ele adormece as paixões, eu desperto. E o tempo se rói com inveja de mim, me vigia querendo aprender como eu morro de amor pra tentar reviver. No fundo é uma eterna criança que não soube amadurecer. Eu posso, ele não vai poder me esquecer.
Resposta ao Tempo, de Aldir Blanc, em homenagem ao filme-poesia A Máquina, de João Falcão.
terça-feira, 17 de outubro de 2006
Às vezes, umas coisas pequenas me fazem mudar de idéia sobre verdades que eu já tinha como absolutas. E eu me sinto imensamente feliz por ver minhas opiniões sendo trocadas por outras, novinhas em folha. Nada mais chato do que passar a vida toda sentada, tendo só um ângulo de visão, como uma fotografia imutável.
Chegar em casa à noite, depois de mais de 10 horas de aulas quase ininterruptas, e não ter pra quem contar como foi o dia, reclamar do cansaço, jantar junto, é tão triste. Até as cachorras me olham sérias, como se cobrassem o atropelo de passos, as risadas, a gritaria. E eu que pensava que não tinha medo de solidão, ligo a tv pra ouvir vozes que encham a casa, mesmo que só de mentira.
De repente, me descubro tão dependente como nunca achei que fosse. Percebo a importância de quem está sempre perto, seja rindo, brigando, apoiando ou discordando, e que quando fica longe, deixa um espaço vazio, mudo. Será que o Tom tinha mesmo razão? Será mesmo impossível ser feliz sozinho?
Defenestro minha falsa auto-suficiência e corro pra abrir a porta. Eles chegaram.
Chegar em casa à noite, depois de mais de 10 horas de aulas quase ininterruptas, e não ter pra quem contar como foi o dia, reclamar do cansaço, jantar junto, é tão triste. Até as cachorras me olham sérias, como se cobrassem o atropelo de passos, as risadas, a gritaria. E eu que pensava que não tinha medo de solidão, ligo a tv pra ouvir vozes que encham a casa, mesmo que só de mentira.
De repente, me descubro tão dependente como nunca achei que fosse. Percebo a importância de quem está sempre perto, seja rindo, brigando, apoiando ou discordando, e que quando fica longe, deixa um espaço vazio, mudo. Será que o Tom tinha mesmo razão? Será mesmo impossível ser feliz sozinho?
Defenestro minha falsa auto-suficiência e corro pra abrir a porta. Eles chegaram.
segunda-feira, 16 de outubro de 2006
Gostaria de agradecer ao meu vizinho, que comprou um carro com um som que mais parece um trio elétrico. E adora abrir o porta-malas e testar a potência da parafernália em plena hora do almoço ou nas tardes de domingo, ouvindo o melhor do rap, funk e sertanejo. Demonstrar minha enorme gratidão também à obra aqui do lado, aos caminhões que vêm e vão o dia inteiro e aos pedreiros que executam tão bela orquestra, com picaretas e betoneiras.
E por último, mas não menos importante, prestar meus mais sinceros agradecimentos aos passarinhos que fizeram ninho na minha janela, e piam histericamente das 6 da manhã às 6 da tarde. Só com a colaboração de todos foi possível vencer o vício da sesta, obrigada.
E por último, mas não menos importante, prestar meus mais sinceros agradecimentos aos passarinhos que fizeram ninho na minha janela, e piam histericamente das 6 da manhã às 6 da tarde. Só com a colaboração de todos foi possível vencer o vício da sesta, obrigada.
domingo, 15 de outubro de 2006
A vista da minha janela é uma monótona parede branca e alta, a parede da casa vizinha. E de tão alta, encobre o céu. Malditas casas germinadas e sua economia de espaço (e dinheiro). Por isso, no meu quarto não existe noite estrelada, luar prateado ou pôr-do-sol.
Quando sinto o cheiro da chuva chegando, fico esperando na janela as primeiras gotas caírem, pincelando a parede/tela em branco. Por um momento, as pintinhas na parede substituem os pontinhos no céu.
Quando sinto o cheiro da chuva chegando, fico esperando na janela as primeiras gotas caírem, pincelando a parede/tela em branco. Por um momento, as pintinhas na parede substituem os pontinhos no céu.
terça-feira, 10 de outubro de 2006
Há muito tempo eu não via um show tão lindo quanto o do Gram no último sábado. Daqueles que fazem quem nem gostava da banda (no caso, eu) voltar pra casa louco pra ouvir o cd de novo, e de novo, e de novo. Delicioso. Os caras tocam com um prazer, como se fosse o primeiro show. Vibram como se o público de umas 200 pessoas fosse de 2000. Lindo. Deixa muita banda metida à besta no chão.
E as músicas, como não podiam deixar de ser, são ótimas. Tanto o novo quanto o velho cd. O estilo não é o que eu mais gosto, mas as letras são tão delicadas e melancólicas, e combinam tão bem com uma melodia ora simples, beatlezada; ora pesada, com guitarras bem distorcidas e muita barulheira.
Enfim, não entendo nada de música. Só obedeço a meu ouvido pretensioso, que acha que sabe o que é bom.
"Mas se você falhar, volta pra casa, já tanto faz. Vai me ver sorrindo pra te enfeitar. E me trai comigo, e descanse em paz..."
E as músicas, como não podiam deixar de ser, são ótimas. Tanto o novo quanto o velho cd. O estilo não é o que eu mais gosto, mas as letras são tão delicadas e melancólicas, e combinam tão bem com uma melodia ora simples, beatlezada; ora pesada, com guitarras bem distorcidas e muita barulheira.
Enfim, não entendo nada de música. Só obedeço a meu ouvido pretensioso, que acha que sabe o que é bom.
"Mas se você falhar, volta pra casa, já tanto faz. Vai me ver sorrindo pra te enfeitar. E me trai comigo, e descanse em paz..."
sexta-feira, 6 de outubro de 2006
Dói tanto ver quem a gente gosta sofrendo. Pior é não poder fazer nada, sentir-se impotente, inútil. O coração aperta, fica pequeno, a garganta dá um nó. Dá vontade de pegar metade da tristeza pra gente, dividir o peso.
Dizer que tudo vai ficar bem, que no final tudo vai dar certo, de nada adianta. Tudo soa tão impessoal, falso. Só queria poder te abraçar, e sentir meu ombro umedecer.
Dizer que tudo vai ficar bem, que no final tudo vai dar certo, de nada adianta. Tudo soa tão impessoal, falso. Só queria poder te abraçar, e sentir meu ombro umedecer.
quarta-feira, 4 de outubro de 2006
terça-feira, 3 de outubro de 2006
Suas blusas de lã bicolores, suas calças jeans azuis de corte reto, seu boné esverdeado cobrindo parte do cabelo castanho, liso e fino, que se une à barba malfeita logo abaixo das costeletas. Os ombros quase largos e o jeito seguro de andar. Seus livros amarelados guardados na pasta preta velha. O lenço de pano xadrez já desbotado, ao invés de descartáveis lenços de papel. As mãos fortes com as veias saltadas, que escrevem coisas que não sei ler. A mesma mania de esconder as mãos nos punhos da blusa e de roer as unhas. A boca fina sempre cerrada e os olhos pequenos que sorriem sozinhos, contrariando o rosto sério.
Chega a ser irreal. E é.
Chega a ser irreal. E é.
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